Quando ouvimos falar em Tarot, a primeira imagem que surge na mente é a de cartas misteriosas, símbolos enigmáticos e previsões sobre o futuro. No entanto, a história desse baralho é muito mais rica e surpreendente do que parece. Antes de se tornar um instrumento místico, o Tarot nasceu como um simples jogo de cartas, circulou entre cortes nobres e tavernas populares, e só séculos depois adquiriu a aura esotérica que o consagrou. Portanto, para compreender o Tarot como o conhecemos hoje, é necessário viajar pela Europa medieval, acompanhar as mudanças culturais do Renascimento e observar o fascínio do século XIX pelo ocultismo.

As origens do Tarot

As cartas de jogar chegaram à Europa por volta do século XIV, provavelmente trazidas através de contatos comerciais e culturais com o mundo islâmico. Os mamelucos, no Egito, já utilizavam baralhos com naipes e figuras que lembram o que mais tarde se consolidaria no continente europeu. Assim, ao chegar à Península Ibérica e à Itália, esse tipo de jogo rapidamente se popularizou.

Foi justamente no norte da Itália, durante o século XV, que surgiu algo novo: os “trionfi”, ou triunfos — um conjunto de cartas adicionais, ricamente ilustradas, que ampliavam os baralhos comuns. Esses triunfos retratavam cenas alegóricas, figuras religiosas e até referências à vida social da época. Juntos, eles deram origem ao que hoje chamamos de Tarot.

Entre os primeiros registros está o famoso Tarot de Visconti-Sforza, encomendado por famílias nobres de Milão e Ferrara. Vale destacar que essas cartas não eram simples objetos de lazer: eram verdadeiras obras de arte, pintadas à mão, e serviam tanto para entreter quanto para exibir prestígio e sofisticação.

O Tarot como jogo

Durante vários séculos, o Tarot foi apenas isso: um jogo de cartas. Em diferentes países, recebeu nomes distintos: “tarocchi” na Itália, “tarot” na França e “tarock” em regiões germânicas. As partidas eram disputadas em grupo e lembravam em muito outros jogos de vaza, como a sueca ou o bridge.

Ainda hoje, em alguns lugares da Europa, o Tarot continua sendo utilizado dessa forma, apenas como jogo tradicional, sem nenhuma ligação com práticas místicas. É curioso notar, portanto, que as mesmas cartas que hoje são associadas à adivinhação já foram, em outros tempos, motivo de risos, apostas e competições amistosas em tavernas e salões aristocráticos.

A virada mística

Contudo, a verdadeira transformação do Tarot em ferramenta esotérica não aconteceu de forma imediata. Ela começou apenas no século XVIII, período em que o interesse europeu pelo ocultismo, cabala e simbolismo estava em plena expansão.

Um personagem fundamental nesse processo foi o francês Antoine Court de Gébelin. Em 1781, ele publicou uma obra em que defendia — sem qualquer comprovação histórica — que o Tarot teria origem no Egito Antigo e guardaria a sabedoria secreta dos sacerdotes. Essa hipótese, ainda que equivocada, exerceu enorme influência e moldou o imaginário ocidental sobre o Tarot.

Pouco tempo depois, outro francês, o cartomante Jean-Baptiste Alliette, conhecido como Etteilla, popularizou o uso do Tarot para fins de adivinhação. Ele criou métodos de leitura, atribuiu significados específicos às cartas e lançou manuais que se espalharam rapidamente.

Já no século XIX, com o fortalecimento das sociedades secretas e do movimento esotérico europeu, o Tarot foi integrado a sistemas complexos como a cabala judaica, a alquimia e a astrologia. Dessa forma, deixou de ser apenas um jogo e passou a ser encarado como um espelho da alma e um mapa espiritual.

O Tarot moderno

Entre os diversos baralhos criados ao longo dos séculos, o mais famoso e influente é, sem dúvida, o Rider-Waite-Smith, publicado em 1909. Criado pelo místico Arthur Edward Waite e ilustrado pela talentosa artista Pamela Colman Smith, esse Tarot inovou ao trazer imagens completas para todas as cartas — inclusive os Arcanos Menores, que antes eram representados apenas por números e naipes.

Essa mudança foi fundamental, pois transformou o baralho em um verdadeiro livro visual, repleto de símbolos e referências esotéricas. Como resultado, o Rider-Waite-Smith se tornou a base para a grande maioria dos baralhos modernos que conhecemos hoje.

O significado do Tarot

O Tarot é composto por 78 cartas, divididas em dois grandes grupos:

  • Arcanos Maiores (22 cartas): figuras como O Louco, A Imperatriz, A Morte e O Sol. Representam arquétipos universais e forças maiores que influenciam a vida humana.
  • Arcanos Menores (56 cartas): divididos em quatro naipes (copas, ouros, espadas e paus), refletem situações do cotidiano, desafios práticos e emoções.

Quando utilizado como ferramenta mística, o Tarot não deve ser visto como uma “bola de cristal” que prevê o futuro de forma absoluta. Pelo contrário, ele funciona mais como um espelho simbólico, que auxilia na interpretação de situações, promove reflexões sobre escolhas e possibilita o acesso a conteúdos mais profundos do inconsciente.

O Tarot no contexto cultural e social

Ao longo do tempo, a trajetória do Tarot acompanhou de perto as grandes transformações culturais e sociais da Europa.

  • No Renascimento, refletia o gosto pelas alegorias, pelo simbolismo religioso e pela arte refinada.
  • No século XVIII, foi reinterpretado à luz do fascínio europeu pelo Oriente, pelo Egito e pelo ocultismo.
  • No século XIX e início do XX, passou a dialogar diretamente com movimentos esotéricos, espiritualistas e até com a psicologia. Não é à toa que Carl Jung viu nos Arcanos arquétipos do inconsciente coletivo.
  • Na atualidade, o Tarot ocupa múltiplos espaços: é ferramenta de autoconhecimento, objeto de estudo, expressão artística, recurso terapêutico e, ao mesmo tempo, continua a ser jogado como simples baralho em algumas regiões.

Assim, o Tarot tornou-se um verdadeiro fenômeno cultural, transitando entre o lúdico, o místico e o psicológico.

Conclusão

Dessa forma, podemos afirmar que o Tarot é um verdadeiro camaleão cultural. Ele nasceu como jogo de cartas, foi reinventado como chave mística, conquistou status de objeto artístico e hoje atravessa fronteiras entre o entretenimento, a espiritualidade e a reflexão pessoal.

Mais do que prever o futuro, o Tarot convida cada pessoa a olhar para dentro de si e reconhecer que cada carta é um reflexo dos dilemas, esperanças e caminhos que fazem parte da experiência humana. Portanto, compreender sua história é também compreender a forma como diferentes épocas e culturas buscaram sentido para a vida.

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